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Fé e realização - Os Cristãos e o retorno à Terra Prometida

9 Apr 2009

 

Michael J. Pragai

A Cristandade sem a Terra Santa é inconcebível. Quer as suas raízes sejam teológicas, históricas, culturais, morais ou geográficas, elas têm uma origem central: a Terra Santa, a histórica província romana da Palestina, a bíblica terra de Canaã, a terra dos profetas e de Jesus Nazareno, a terra dos patriarcas hebreus, a terra que é hoje Israel. Foi aqui, neste pequeno e bem definido ponto no Império Romano, a semiautónoma província da Palestina, no seio da preponderante população judaica deste país, que a crença cristã teve o seu princípio.

Trezentos ou quatrocentos anos depois, nos séculos III ou IV, o Cristianismo tinha-se expandido para além do que, muito mais tarde, viria a ser conhecido como a Terra Santa. Mas a terra da Palestina, e Jerusalém no seu centro, eram ainda os focos geográfico e espiritual de todo o mundo cristão. E, apesar do Cristianismo se ter tornado uma religião universal, com a sua autoridade central em Roma, a Terra Santa e Jerusalém mantiveram sempre um lugar muito especial no coração, no pensamento e nas emoções dos cristãos, em toda a parte e em todos os tempos.

O elo específico, que manteve vivo esse interesse, e se tornou num profundo apego à Terra, é, e sempre foi, a Bíblia, as Sagradas Escrituras, tanto do Velho Testamento como do Novo. Eles são a órbita espiritual e cultural, dentro da qual Jesus de Nazareth se movimentou e dentro da qual ele construiu a sua visão do mundo à sua volta, tal como o fizeram, naquela época, os seus contemporâneos, todos eles judeus, e tal como os judeus sempre fizeram, onde quer que vivessem e quaisquer que fossem as circunstâncias do seu apego à vida e à sobrevivência.

Nunca houve um êxito editorial, um bestseller, como a Bíblia. Nenhum outro livro, no decorrer da civilização humana, passou por tantas re-edições, para não falar de cópias manuscritas, e nenhum outro livro foi traduzido para tantas línguas, dialetos e idiomas secundários. Por vezes, o simples facto das Escrituras terem sido traduzidas para determinada língua teve um efeito decisivo no desenvolvimento dessa língua. Algumas vezes, culturas inteiras foram impulsionadas para um novo e rápido crescimento, pelo aparecimento de uma tradução da Bíblia, em língua acessível ao seu público instruído

Histórias bíblicas, as suas parábolas, profecias, milagres e cantos, heróis e vilões, patriarcas, reis, juízes e condutores, são conhecidos em todas as partes do mundo, onde quer que o Cristianismo tenha um pé, e nos países cuja cultura dominante esteja ancorada à tradição cristã. E com essas histórias, milagres e parábolas, vem o conhecimento de lugares, sítios, rios, vales e montanhas da Terra Santa. O nome de Jerusalém é conhecido nos cantos mais remotos da terra. Da mesma forma o são Belém, Jericó, o rio Jordão, o monte Tabor e o Mar da Galileia. Estes são nomes comuns, que fazem parte da herança judeo-cristã, uma herança permeada, como nenhuma outra, com a geografia da terra. Há lugares da antiga Palestina que eram mais conhecidos pelas crianças das escolas na Grã-Bretanha, ou na América colonial, nos países da Escandinávia protestante, e certamente em alguns países africanos, do que os nomes de cidades e rios ao pé de casa.

Mas sendo o apego à Terra Santa tão importante para a vida dos cristãos, é, e sempre foi, ainda mais central na vida do povo judaico. Se existe um ponto focal único na vida judaica, esse é a Terra de Israel. Com toda a sua universalidade, a religião e a cultura judaica estão ligadas à terra da sua origem, como uma criança está ligada ao ventre de sua mãe. Não importa se consideramos o povo judaico como uma religião, uma crença, uma tradição ou uma nação, uma herança cultural ou meramente um conceito espiritual, todo o tempo em que existe em relação a ele algo de judaico, está inseparavelmente e irreversivelmente ligado à Terra de Israel.

Foi lá que nasceu um povo; lá foi criado o seu único código moral e legal; foi lá que ele produziu os seus pensadores e profetas, juízes e reis; foi lá que ele lutou para se agarrar à terra que Deus lhe prometeu. Nesse país, foi celebrada a aliança, a primeira aliança jamais contraída entre Deus e um povo, sobre um determinado ponto na superfície da terra, e sobre o modo especial para o povo da aliança viver nessa Terra Prometida. E foi lá que eles empreenderam um intento sem precedentes de viver de acordo com a aliança com Deus. Eles trabalharam a terra que lhes foi dada e edificaram a sua nova nação. Eles tiveram os seus governadores e reis, e muitas vezes tiveram que lutar contra intrusos e invasores. Mas cumpriram a sua promessa e concretizaram, o melhor que eles puderam, a sua parte na aliança. Porém, as circunstâncias tiveram a supremacia, e o povo de Israel foi levado para o exílio na Babilónia.

Foi lá, junto aos rios da Babilónia, no século VI antes da era cristã, que nasceu a ideia do retorno. O Salmista deixou uma prova imortal:

Nas margens dos rios da Babilónia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia, pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião Como, porém, haveríamos de entoar o canto do Senhor em terra estranha? Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que a minha mão direita esqueça a sua destreza. Apegue-se-me a língua ao céu-da-boca se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria. (Salmos - Cap. 136:1-6).

Através das gerações, incontáveis milhões de homens e mulheres conheciam estes versos. Eles sabiam nas suas mentes, assim como por instinto, que aqueles que assim cantavam eram judeus da Terra de Israel, cantando e chorando, e sonhando com o seu regresso a casa.

Jesus de Nazareth viveu na Judeia, depois do regresso deles do primeiro Exílio na Babilónia. Ele viveu lá antes que um segundo, e infinitamente pior, exílio se abateu sobre o povo da Judeia. Um exílio que durou quase 2.000 anos; um exílio errando sem lar, de país para país, quando os judeus foram perseguidos, expulsos, segregados, mal compreendidos, invejados, odiados, matados individualmente ou em grupos, queimados em fogueiras, assassinados aos milhões em fábricas de morte sofisticadas.

Mas o povo judeu agarrou-se à vida e manteve viva a sua fé. Durante séculos, os cristãos ficaram perplexos e admirados, sem compreender como é que este povo sobreviveu às mais miseráveis e horríveis condições. Algumas vezes eles observavam, não em dúvida, mas com surpresa, com incredibilidade e intimidados. Talvez que essa admiração tenha, por sua vez, atiçado as fogueiras, não só do medo, mas também do ódio e da inveja.

Muitos volumes foram escritos sobre este enigma da continuidade nacional e espiritual dos judeus. Foram propostas muitas explicações, algumas por cristãos, outras por judeus, e outras leigas. Alguns abordaram o tema sob um ponto de vista teológico, outros sob um ponto de vista puramente espiritual; outros ainda abordaram-no pela vertente da história. Mas, comum a todos eles é o conceito do retorno. Algumas vezes como a esperança e o sonho e a prece de regressar à Terra de Israel, para viver, novamente, como um povo e uma nação sob o mando de Deus; algumas vezes ligado aos dias do Messias, uma condição prévia para a Era Messiânica. Mas sempre, onde quer que haja judeus, há uma razão principal para a vida, uma esperança, tanto individual como nacional, no retorno. Por isso oram os judeus, três vezes em cada dia, e em cada sábado, em cada importante ocasião familiar e em cada feriado ou celebração religiosa, até ao dia da morte.

Desde os mais antigos princípios da Cristandade, que tem havido um intercâmbio espiritual entre o judeu e o cristão. Houve debates, discussões e discursos fatídicos, em que, para o interlocutor judeu, a vida estava em jogo. Teólogos cristãos, membros do clero e leigos instruídos tinham conhecimento das tradições dos judeus, das suas orações e das suas aspirações, e frequentemente conheciam as Escrituras no original hebraico, assim como em grego, latim e outras versões. Os cristãos tinham certamente conhecimento das muitas profecias sobre o retorno do povo judeu à terra dos seus antepassados e à sua restauração como nação, na terra que originalmente lhes foi prometida e contratada na Aliança de Abraão, sucessivamente reconfirmada. Frequentes vezes refletiram sobre a ligação entre essas profecias bíblicas e o facto de os judeus viverem no seu seio, sofrendo, muitas vezes heroicamente, e sem explicação possível, o infortúnio de marginados, e de alvos sempre presentes para o incitamento ao ódio, à descriminação, ao saque, à expulsão e diretamente ao assassínio. E alguns perguntaram-se se a própria Cristandade terá uma missão a cumprir, agindo para sua autorrealização, promovendo a salvação e o final dos tempos? Tem a Cristandade uma missão a cumprir e assegurar o cumprimento das profecias do retorno judaico, possivelmente como condição prévia da redenção final cristã? Alguns fizeram essas perguntas, outros responderam a elas, e, ao longo dos anos, teólogos cristãos, escritores, estadistas e políticos práticos responderam na afirmativa. Os cristãos têm uma parte no retorno. A restauração do povo judeu na sua terra natal é parte da perceção cristã da finalidade de Deus no mundo.

Muito antes de ter surgido o movimento judaico do retorno, o Movimento Sionista, em finais do século XIX, já era claramente evidente a crença e o apoio cristão à ideia do retorno. Muito cedo foram feitas contribuições importantes, antes de mais na Grã-Bretanha. Outros países se lhe seguiram, em particular a América. E a inspiração para esse apoio e compreensão do retorno veio da própria crença cristã. Quando a ideia moderna dos próprios judeus sobre o retorno se tornou num movimento político e prático, culminando com o Estado de Israel, houve muitos cristãos que o apoiaram e lhe prestaram serviços vitais no seu árduo caminho. Será talvez uma estranha ironia que o regresso dos judeus à pátria tenha sido conseguido, em parte, mas significantemente, com o apoio daquela mesma crença que eles, os judeus, tinham dado aos gentios.

O estado judaico na Terra de Israel intensificou o antigo e corrente relacionamento entre cristãos e judeus, O diálogo entre as duas religiões, foi frequentemente, no passado, ignóbil e sórdido, mas dois importantes eventos, que tiveram lugar perto do final da primeira metade do século XX, foram um ponto de mudança decisivo: o Holocausto, que extinguiu fisicamente a vida de mais de um terço do povo judaico, e o surgimento de estado judaico. Daí em diante, a substância e o teor do diálogo passaram por uma transformação profunda, fortemente destacada pela decisão do Segundo Concílio do Vaticano de absolver os judeus, de uma vez para sempre, do crime de deicídio. E então, há os próprios visíveis e incontestáveis factos reais em Israel e em Jerusalém. A cidade está tranquila, os santuários sagrados são livremente acessíveis a todos, as comunidades cristãs prosperam e em cada ano muitos milhares de peregrinos cristãos veem e testemunham o amanhecer de uma nova era.

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